IA para Advogados: Como Usar o ChatGPT na Produção de Conteúdo Sem Perder a Personalidade e a Ética
Por Equipe Congensy · · 8 min de leitura
IA para Advogados: Como Usar o ChatGPT na Produção de Conteúdo Sem Perder a Personalidade e a Ética

A rotina de um escritório de advocacia exige malabarismo constante. Entre a redação de prazos judiciais, o atendimento presencial ou virtual aos clientes e a gestão administrativa, sobra pouquíssimo tempo para planejar e executar uma estratégia de comunicação digital. No entanto, no cenário jurídico atual, marcar presença na internet não é mais uma opção, mas uma necessidade para quem deseja construir autoridade.
É nesse cenário de sobrecarga que a inteligência artificial surge como uma alternativa atraente. Ferramentas como o ChatGPT prometem acelerar a escrita, criar roteiros e estruturar ideias em segundos. Porém, o uso dessas tecnologias no Direito traz desafios complexos. Como produzir conteúdo de forma ágil sem que os textos fiquem frios, robotizados ou idênticos aos dos concorrentes? E, mais importante, como garantir o absoluto respeito às regras éticas da OAB?
Neste artigo, você vai entender como utilizar a IA a favor do seu posicionamento digital, mantendo a sua identidade profissional e a segurança jurídica que a nossa profissão exige.
O dilema do tempo: Como a IA para advogados resolve o gargalo da produção de conteúdo
Para o advogado autônomo ou sócio de um pequeno escritório, o dia parece ter menos horas do que o necessário. Produzir artigos informativos ou posts para redes sociais costuma ser a primeira tarefa sacrificada quando os prazos processuais apertam. O resultado é um perfil digital abandonado ou atualizado de maneira irregular, o que prejudica a percepção de autoridade do profissional.
A adoção de tecnologias de inteligência artificial generativa tem sido a saída encontrada por milhares de profissionais para contornar essa escassez de tempo. De acordo com o Relatório sobre o Impacto da IA no Direito 2026, realizado pelo Jusbrasil, Trybe e ITS Rio em parceria com seccionais da OAB (incluindo a OAB/SP), a adesão a essas ferramentas é uma realidade consolidada. O estudo aponta que, em 2026, 77% dos profissionais do Direito utilizam IA generativa com frequência (pelo menos uma vez por semana) em sua rotina profissional, um aumento expressivo frente aos 55% registrados no ano anterior.
Esse crescimento acelerado é justificado pelo ganho de eficiência. O mesmo relatório revela que 84% dos advogados que utilizam a tecnologia relataram que suas expectativas de produtividade foram atendidas ou superadas. Além disso, 91% dos entrevistados afirmaram que houve melhora na qualidade técnica de suas entregas ao integrar a IA em seus fluxos de trabalho.
No entanto, a agilidade traz um risco silencioso: o conteúdo commodity. Textos gerados por inteligência artificial copiados e colados sem qualquer critério costumam ser genéricos, superficiais e repletos de clichês. Um perfil que publica apenas textos frios e puramente teóricos falha em sua missão principal: conectar-se com o cliente final. Na advocacia, as pessoas contratam pessoas. A IA deve ser encarada como uma assistente de redação, nunca como a autora principal do seu posicionamento.
O que a OAB diz sobre o uso de inteligência artificial no marketing jurídico?
Uma dúvida frequente na advocacia é se a Ordem dos Advogados do Brasil proíbe ou restringe o uso de ferramentas automatizadas. A resposta é clara: a OAB não proíbe a utilização de inteligência artificial, seja para atividades de suporte interno do escritório, seja para auxiliar na criação de publicidade informativa.
O pilar central que regula essa prática é o Provimento 205/2021 do Conselho Federal da OAB. Embora o texto do provimento não cite expressamente o ChatGPT ou outras plataformas generativas recentes, ele estabelece as balizas para qualquer ação de marketing jurídico, físico ou digital. A regra de ouro é que toda publicidade deve ter caráter meramente informativo, educativo e ilustrativo. É vedada a mercantilização, a captação ativa de clientela, a promessa de resultados ou a utilização de termos comerciais como "consulte-nos hoje mesmo" ou "resolva seu problema agora".
Mais recentemente, em 11 de novembro de 2024, o Conselho Federal da OAB aprovou recomendações formais específicas sobre o uso de IA generativa na prática jurídica. Elaborado pelo Observatório Nacional de Cibersegurança, Inteligência Artificial e Proteção de Dados da OAB, o documento reforça quatro diretrizes fundamentais: Legislação Aplicável, Confidencialidade e Privacidade, Prática Jurídica Ética e Comunicação sobre o Uso de IA Generativa.
Essas recomendações deixam claro que a responsabilidade técnica pelas publicações e pelas teses jurídicas é indelegável. Se a IA gerar uma informação incorreta, desatualizada ou inadequada ao decoro da profissão, a responsabilidade ética e civil perante o tribunal de ética da OAB será exclusivamente do advogado que assina e publica o material.
Como usar o ChatGPT na advocacia de forma ética e segura
Para colher os benefícios da produtividade sem incorrer em infrações éticas, o advogado precisa adotar cuidados rigorosos em três frentes principais:
1. Proteção absoluta do sigilo profissional
O Artigo 25 do Código de Ética e Disciplina da OAB consagra o sigilo profissional como um dever absoluto da advocacia. Ao utilizar ferramentas públicas de IA, como a versão gratuita do ChatGPT, os dados inseridos nos chats podem ser utilizados pelas empresas desenvolvedoras para treinar novos modelos. Portanto, nunca insira nomes de partes, números de processos em segredo de justiça, documentos internos ou qualquer informação real de clientes nas plataformas. Para criar conteúdo sobre um caso real, crie um cenário hipotético e mude completamente as circunstâncias para garantir a anonimização total.
2. Combate às alucinações e revisão rigorosa
As ferramentas de IA trabalham por associação probabilística de palavras. Isso significa que elas podem criar respostas que parecem extremamente convincentes, mas que contêm erros factuais graves, inventando decisões judiciais, números de leis ou súmulas que não existem. Esse fenômeno é conhecido como alucinação. O relatório do Jusbrasil/ITS Rio aponta que as alucinações das ferramentas são uma preocupação real para 46% dos advogados brasileiros. Nunca publique um texto gerado por IA sem antes checar cada fonte, cada artigo de lei citado e a vigência das normas referenciadas.
3. Treinamento de tom de voz
Para evitar que seus textos pareçam genéricos, você deve treinar a ferramenta. Antes de pedir um texto, explique ao ChatGPT quem você é, qual é a sua área de atuação e qual tom deseja adotar. Você pode instruir a IA a escrever de forma sóbria, elegante e informativa, evitando termos excessivamente informais ou jargões publicitários agressivos que violem o Provimento 205/2021.
Passo a passo prático: Criando conteúdo jurídico para o Instagram com auxílio da IA
A criação de conteúdo de valor exige que o advogado saiba se comunicar de forma clara com o seu público-alvo, deixando de lado o juridiquês carregado que afasta o cidadão comum. Veja como estruturar esse processo em três etapas:
Passo 1: Elaborando o prompt correto
Evite comandos genéricos como "escreva um post sobre divórcio". Quanto mais específico for o seu comando (prompt), melhor será o resultado. Forneça contexto, defina o público e determine o formato.
Um exemplo de prompt eficiente:
"Atue como um assistente de comunicação para um escritório de advocacia familiarista. Escreva o texto de apoio para um post educativo no Instagram explicando, de forma simples e didática, quais são os direitos de quem vive em união estável informal. O tom deve ser sóbrio, acolhedor e puramente informativo, respeitando as regras éticas da OAB. Evite termos em latim e jargões processuais."
Passo 2: Diversificando formatos
Você pode utilizar a IA para desmembrar um único tema técnico em diferentes formatos para as redes sociais. O ChatGPT pode ajudar a estruturar tópicos para um carrossel explicativo, sugerir roteiros objetivos para você gravar vídeos de forma direta ou criar uma legenda detalhada para um post estático. Essa versatilidade é essencial para quem busca produzir vídeos informativos para o Reels do Instagram e atrair a atenção do público de maneira ética.
Passo 3: O toque humano indispensável
Após receber o rascunho da IA, faça uma leitura crítica. Reescreva a introdução para incluir o seu estilo de escrita, insira um exemplo prático fictício que ilustre bem o problema e garanta que a conclusão seja informativa, e não um anúncio comercial. A IA entrega a estrutura e a base do texto, mas a autoridade e a empatia vêm da sua experiência prática.
Erros comuns que o advogado deve evitar ao produzir conteúdo com IA
Para manter a integridade do seu nome profissional e evitar problemas com a comissão de fiscalização da OAB, fique atento a estes erros frequentes:
- Copiar e colar sem edição: O leitor percebe quando um texto foi inteiramente gerado por uma máquina. A falta de personalidade reduz a confiança e o engajamento do seu público.
- Utilizar chamadas comerciais agressivas: Muitas IAs geram conclusões com textos como "entre em contato para resolver seu caso agora mesmo". Substitua essas frases por encerramentos educativos, como "se você conhece alguém que precisa dessa informação, compartilhe este conteúdo".
- Focar em quantidade e esquecer a qualidade: Publicar dez posts superficiais por semana não trará resultados melhores do que publicar três conteúdos profundos, bem estruturados e que demonstrem verdadeiro domínio técnico sobre a matéria.
- Ignorar as atualizações legislativas: A base de dados das ferramentas de IA pode ter limitações temporais de atualização. Publicar um artigo baseado em uma lei que já foi revogada ou alterada destrói instantaneamente a sua credibilidade profissional.
A inteligência artificial é uma aliada valiosa para destravar a folha em branco e organizar ideias. No entanto, o sucesso do marketing jurídico ético depende diretamente do seu olhar crítico, do seu conhecimento técnico e da sua capacidade de humanizar a comunicação com o cliente.
Perguntas frequentes
É permitido usar o ChatGPT para produzir conteúdo jurídico?
Sim, a OAB não proíbe o uso de ferramentas de inteligência artificial para auxiliar na produção de conteúdo. No entanto, o material final publicado deve respeitar integralmente os limites éticos de sobriedade e caráter informativo.
Como o Provimento 205/2021 da OAB se aplica ao uso de inteligência artificial?
O Provimento 205/2021 determina que toda publicidade do advogado deve ser informativa, educativa e moderada. Os textos gerados por IA devem seguir estritamente essas regras, sendo vedados termos comerciais ou captação ativa de clientes.
Posso colocar dados de clientes no ChatGPT para agilizar a escrita de artigos?
Não, essa prática viola o dever de sigilo profissional estabelecido pelo Código de Ética da OAB e pela LGPD. Toda informação inserida em ferramentas públicas de IA deve ser completamente anonimizada e fictícia.
Como evitar que os posts criados por IA fiquem genéricos ou repetitivos?
Você deve treinar a ferramenta com instruções detalhadas sobre seu tom de voz e público-alvo. Além disso, é indispensável revisar o rascunho da IA, inserindo seus próprios exemplos práticos e estilo de escrita.
Quais são os principais cuidados éticos ao usar IA no marketing jurídico?
Os principais cuidados são garantir a confidencialidade das informações, revisar rigorosamente o conteúdo para evitar erros técnicos ou alucinações da IA e manter o caráter estritamente informativo das publicações, sem promessas de resultados.
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